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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Que sei eu?



A velha máxima de Michael de Montaigne nos remete ao exercício de filosofar e estar questionando-se todo o tempo. Não existe uma chave para que as coisas possam ser decifradas, porém como as coisas funcionam?
A forma ensaística de Montaigne de escrever auxilia no processo de desconfiar daquilo que é afirmado e pré estabelecido. O autor relata que os professores de sua época (28 fevereiro de 1533 a 13 setembro de 1592), eram um tanto quanto pedantes, o questionar não era valorizado, mas e hoje? 
Em nossas salas de aula os estudantes são estimulados a questionar? 
O que dizer dos estudantes que dizem saber o que querem falar, mas não conseguem saber de que forma? Ou como expressar-se?
Sem saber as questões existentes em uma criança, o que podemos, ou de que forma poderemos auxiliar na formação humana? 
Será que dar voz para essas crianças não seria uma boa forma de saber quais caminhos seguir na educação?
Essas reflexões partem do texto de Divino José da Silva (UNESP) - "O Ensaio em Montaigne: Um Estilo em Filosofia da Educação", que foi comentado na disciplina de Seminário de Dissertação pela professora Lúcia Hardt, auxiliado pelas reflexões do capítulo XXVII - Ensaios, Livro I -  "Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso unicamente de acordo com a razão" e capítulo XXXI "Dos Canibais", ambos de Montaigne.
O ponto principal - porém longe de trazer respostas prontas, ou ainda prescrever algo exato - é continuar exercitando o "que sei eu?"
O exercício de não acreditarmos no primeiro instante em tudo aquilo que ouvimos ou ainda tentar analisar as coisas de um ponto de vista menos carregado de pré julgamentos torna-se fundamental em uma relação pedagógica.
Cabe nesse instante uma passagem do capítulo XXVII "aprendêssemos com exatidão a diferença entre uma coisa e outra, entre o que está contra a ordem e a natureza, e o que se situa simplesmente fora do que admitimos comumente, entre não acreditar cegamente e não duvidar com facilidade."
Ainda cabe lembrar outra passagem "a glória e a curiosidade são dois flagelos de nossa alma; esta nos impele a meter o nariz em tudo; aquela nos proíbe deixar seja o que for sem decisão ou solução", volta-se ao ponto de necessidade de questionar-se a todo tempo.   
Porém vale lembrar que em muitos momento as pequenas coisas - talvez o questionamento de uma criança - pode auxiliar em diversos momentos a aprendizagem, nos desprendando daquilo que consideramos maior - talvez o saber do professor. Como um embasamento para essa ideia utilizo as palavra de Divino José da Silva: "por que ler Montaigne, ainda hoje? (...)  Montaigne é comparado, por Renato Janine Ribeiro (2004, p. 221), a Pascal e Nietzsche, pois tem em comum com estes autores o aguçamento dos sentidos e da razão para "[...] agarrar o pequeno, o detalhe, a falha e a partir dele pensar. Não é pensar pela porta grandiosa, a do cânone, a do registro solene; é pensar pela porta vadia, pela exceção, pelo que é torto, pelo que foge ao cânome."
Não tendo a pretensão de escrever com prescrição, deixo a você leitor, ideias para pensar!





sábado, 15 de outubro de 2011

Imortal? Qual a vantagem?


Ao ler o livro Emílo, ou, Da educação; um ponto foi muito provocativo, momento em que Jean-Jacques Rousseau fala sobre a vida, a morte e a imortalidade. "Se tivessem tido a infelicidade de nascerem imortais, seriam os mais miseráveis dos seres: uma vida que jamais tivessem medo de perder não teria para elas nenhum valor." (ROUSSEAU, 2004, pg. 35). O autor ainda completa dizendo que para o homem sábio a morte é apenas uma razão para suportar os sofrimentos da vida, pois “se não estivéssemos certos de perdê-la um dia, seria muito difícil conservá-la.” (ROUSSEAU, 2004, pg. 77).
Jean-Jaques faz esse relato, pois refere-se todo instante a necessidade da criança de viver solta, livre, sem "amarras", sem estar presa, para que assim possa aprender com a vida, com seu preceptor e sua ama de leite, dessa forma cabe a critica aos médicos e a medicina, pois esta seria até útil para alguns homens, porém seria cruel para o gênero humano, uma vez que "o homem sabe sofre com firmeza e morre em paz. São os médicos com suas receitas, os filósofos com seus preceitos, os padres com suas exortações que aviltam seu coração e o fazem desaprender a morrer." (ROUSSEAU, 2004, pg. 36).
É fato que morremos um pouco a cada dia, mas muitas vezes não nos damos conta disto, porém Jean-Jaques, como autor do Romantismo, não tem a ideia de morte como seu principal foco, pelo contrário, ele admira a vida e em todo seu discurso em Emílio existe uma preservação desta, porém na vida moderna desaprendemos que estamos em todos os momentos morrendo um pouco, deixa-se de dar o devido valor a vida e a educação e ainda MONTAIGNE (2002) reforçará que só temos proveito nos estudos quando nos tornamos melhores e mais sensatos.
O Rousseau relata que ao adquirirmos força ao longo da vida evitaremos o esgotamento do corpo proporcionado pela intemperança, além disso;
 "tornamo-nos menos inquietos, menos agitados e fechamo-nos mais em nós mesmos. A alma e o corpo colocam-se, por assim dizer, em equilíbrio, e a natureza não nos exige mais do que o movimento necessário para nossa conservação" (ROUSSEAU, 2004, pg.57). 
Porém para esse processo ser completo necessita-se de um bom preceptor e para isso ainda podemos relembrar Michel de Montaigne, pois para ele o bom preceptor necessita pedir "contas não apenas das palavras de sua lição, mas sim do sentimento e da substância, e que julgue sobre o benefício que tiver feito não pelo testemunho de sua memória e sim pelo de sua vida" (MONTAIGNE, 2002, pg. 225).
Chega-se nesse momento a um ponto crucial de discussão, pois Jean-Jaques relata que "um homem que vive dez anos sem médicos vive mais para si mesmo e para os outros do que aquele que vive trinta anos como vítima deles." (ROSSEAU, 2004, pg. 37). Montaigne ainda dirá que filosofar é aprender a morrer, uma vez que “estudo e a contemplação retiram nossa alma para fora de nós e ocupam-na longe do corpo, o que é um certo aprendizado e representação da morte(...)” (MONTAIGNE, 2002, pg. 120). E ainda completa dizendo que quem ensinasse os homens a morrer, na verdade, estaria ensinando-os a viver.
Portanto, o que seria a vida? O que vale mais na vida? De que sustenta-se a formação humana nos dias de hoje? O que transforma um homem em um cidadão nessa visão romântica? Pode-se nesse momento traçar mais um paralelo com Montaigne:

"As abelhas sugam das flores aqui e ali, mas depois fazem o mel, que é todo delas: já não é tomilho nem manjerona. Assim também as peças emprestadas de outrem ele irá transformar e misturar, para construir uma obra toda sua: ou seja, seu julgamento. Sua educação, seu trabalho e estudo visam tão-somente a formá-lo" (MONTAIGNE, 2002, pg. 227).

Percebemos nesses pequenos trechos uma similaridade entre Rousseau e Montaigne, apesar da diferença de épocas entre os dois, o primeiro viveu de 1712 até 1778, já o segundo 1533 até 1592, um suíço e outro francês, mas ao mesmo tempo uma extrema preocupação com uma formação humana muito mais humanitária do que apenas para simplesmente ensinar as crianças a contar, ler, escrever e posteriormente trabalhar, uma formação muito mais profunda, a qual percebe-se a fragilidade da vida e entende-se que para a criança evoluir necessitá-se de experiências, aprendizados e principalmente saber utilizar os aprendizados durante a vida para uma maior evolução pessoal.

Jean-Jaques Rousseau



Michel de Montaigne















Suas proximidades podem ainda ser referenciadas através do livro II de ROUSSEAU (2004), o qual este cita Montaigne dizendo que quanto mais domarmos as crianças com relação ao sofrimento, mais o protegeremos contra as estranhezas e mais tornaremos sua alma dura e invulnerável, assim sendo não basta ensinar o seus nomes para as crianças, “mas sim fazendo-as prová-las, sem que saibam o que seja”  (ROUSSEAU, 2004, p. 158).
Rousseau (2004) diz que o hábito que devemos deixar que a criança adquira é o de não contrair nenhum, dessa forma coloca-se a criança em condições de ser senhora de si mesma e de fazer em todas as coisas a sua vontade, sempre que tiver vontades, já Montaigne relata que para esse processo de educação não merece educar as crianças para apenas acumular as ideias "não há nada como aliciar o apetite e a afeição; de outra forma fazemos apenas burros carregadores de livros. A golpes de chicote, dão-lhes para guardar a bolsinha cheia de ciência - a qual, para ser eficaz, não deve somente ser guardada em casa; é preciso desposá-la" (MONTAIGNE, 2002, pg. 265).
A pergunta que persiste é: qual a formação humana que queremos para nossas crianças? Afinal "viver não é respirar é agir [...] o homem que mais viveu não é o que contou maior número de anos, mas aquele que mais sentiu a vida." (ROUSSEAU, 2004, p. 16). MONTAIGNE (2002) alerta que a nossa visão é limitada com relação a imensidão do mundo, portanto existe a necessidade de perceber que as verdades sempre serão provisórias, que tudo é finito, que saber morrer liberta-nos de imposições e sujeições, que a morte é o objeto em nossa caminhada é um objeto necessário em nossa vida.
Qual é a forma que estamos sentindo a vida hoje? E qual é a forma que iremos ensinar nossas crianças a sentirem a vida? Utilizaremos de médicos, filósofos, padres, educadores, para camuflar as realidades da vida para nossas crianças? Ou iremos mostrar como é a realidade, deixar saber das belezas da vida e mostrar que existe a morte? Ainda poderemos mostrar que entre a vidAMORte existe o amor, "cum res animum occupavere, verba ambiunt" (Quando as coisas invadirem o espírito, as palavras apresentam-se em grande quantidade.") (MONTAIGNE, 2002, pg.253).

REFERÊNCIAS
MONTAIGNE, Michel de. Os Ensaios: livro I; tradução Rosemary Costhelk Abílio, 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emilio, ou, Da educação. 3. ed. São Paulo: Difel, 2004.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Da educação das crianças

Hoje quero atentar para o texto "Da educação das crianças" de Michel Montaige. Esse texto pode ser encontrado no livro - "Os ensaios: livro I".



Para começarmos a conversa Michel Eyquem de Montaigne (Saint-Michel-de-Montaigne, 28 de fevereiro 1533 - 13 de setembro de 1592) foi um escritor e ensaista francês, considerado por muitos como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras e, mais especificamente nos seus "Ensaios", analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objecto de estudo. É considerado um cépito e humanista. Mais informações sobre ele podem ser encontradas no http://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_de_Montaigne 


 Bom gostaria de compartilhar aqui com vocês alguns pontos do texto que gostei muito. Basicamente o texto é baseado em uma carta de uma mãe que é enviada à ele perguntando sobre como ela deveria educar seu filho, ou melhor, quais seriam os conselhos que ele daria, para que a educação de seu filho fosse adequada.
Montaigne primeiramente avisa que existe uma dificuldade muito grande no processo de ensino, porém é de fundamental importancia escolher um preceptor que antes "tivesse a cabeça bem feita do que bem cheia".
"Que ele lhe peça  contas não apenas das palavras de sua lição mas sim do sentimento e da substância, e que julgue sobre o benefício que tiver feito não pelo testemunho de sua memória e sim pelo de sua vida" (pg. 225). Mostrando, portanto, a necessidade de colocar-se em pratica aquilo que é aprendido.
Com relação aos conteúdos ensinados, Montaigne relata que os alunos podem esquecer imediatamente de onde adquiriu alguma informação, mas que ele saiba assimilá-la. Que não necessariamente o aluno deve seguir exatamente o que é falado por alguém, pois "quem segue um outro nada segue. Nada encontra, e até mesmo nada procura" (pg. 226). 
Partindo dessa idéia ele utiliza uma metáfora ele relata: "As abelhas sugam das flores aqui e ali, mas depois fazem o mel, que é todo delas: já não é tomilho nem manjerona. Assim também as peças emprestadas de outrem ele irá transformar e misturar, para construir uma obra toda sua: ou seja, seu julgamento. Sua educação, seu trabalho e estudo visam tão-somente a formá-lo" (pg. 227).
Portanto o maior objetivo dos estudo é nos tornarmos melhores e mais sensatos. Montaigne resalta muito a importancia de educar para a vida, não apenas para a ciência. "cum res animum occupavere, verba ambiunt" (Quando as coisas invadirem o espírito, as palavras apresentam-se em grande quantidade."
A ciência não deve, nunca, ser o único enfoque para uma boa educação, precisamos mais do que isso "não há nada como aliciar o apetite e a afeição; de outra forma fazemos apenas burros carregadores de livros. A golpes de chicote, dão-lhes para guardar a bolsinha cheia de ciência - a qual, para ser eficaz, não deve somente ser guardada em casa; é preciso desposá-la" (pg. 265).
Esses são alguns dos trechos interessantes existentes no texto citado. 
Montaigne tem uma perspectiva muito interessante sobre educação, claro que algumas de suas idéias não me agradam, como por exemplo, relatar que a educação deve ser realizada, boa parte dela, longe dos pais, porém esse é um dos poucos pontos que discordo das idéias reveladas sobre educação por Montaigne.
Espero que esse breve relato deixe você mais instigados em pesquisar este autor.